Eis que estou à porta

03/03/2013 23:24

"Eis que estou à porta e bato. 
Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, 
entrarei em sua casa e cearei com ele" 
(Ap. 3,19)

 


Essas palavras não pertencem ao texto dos nossos quatro Evangelhos, mas fazendo parte do Apocalipse, pertence ao Evangelho eterno que reúne todas as mensagens que Deus dirige aos homens e mulheres. 

Elas não conduzem a um episódio histórico determinado. Exprimem uma experiência que pode ser de ontem, de hoje ou de amanhã, um apelo que, sem cessar, ressoa em meu coração, como em meus ouvidos e me comovem. 

"Eu estou à porta..." 
Ele andava rapidamente. 
Eu sabia, ou melhor, sentia que ele se dirigia à minha casa, e me retirei apressado, da janela, para que ele não me percebesse. 
Porque eu não estava seguro de lhe abrir a porta. 

Suas visitas provocam em mim uma impressão contraditória. 
Nós nos conhecemos há muito tempo. 
Houve uma época em que éramos íntimos. 
Depois, nossos encontros se espaçaram. 
De um lado, eu me sentia honrado e feliz de tê-lo em minha casa. 

De outro lado, eu me sentia mal. 
Ele provocava em mim questões pessoais inesperadas, que agiam como queimaduras em meu íntimo. Eu tratava de levar o assunto para o domínio das idéias e das doutrinas, mas ele voltava sempre para as coisas íntimas sobre as quais eu temia falar. 
Muitas vezes ele veio e eu, ao invés de abrir a porta me escondi, mas não sem remorso e vergonha. 

Agora, ele vem à minha porta. 
Não à porta principal da minha casa, mas a uma porta lateral, menor. 
No começo de nossa intimidade, quando eu não tinha segredos para ele, eu lhe havia pedido para vir sempre por essa porta, deixando a grande porta da frente para os estranhos e as visitas de cerimônia.

Depois, comecei a sentir um mal-estar por ter-lhe oferecido essa porta lateral. 
Entrando por ela, ele atravessava os cômodos mais familiares de minha casa, nem sempre arrumados. 
Parecia interessar-se por minha sala de jantar, minha cozinha, meu quarto. 
Eu temia que ele descobrisse certas coisas que não eram o que deviam ser.

Para cortar de vez suas visitas, condenei a porta lateral, e comecei a fazê-lo entrar pela porta da frente. O tratamento que passei a lhe dar fez com que suas visitas se tornassem frias, formais e cada vez mais raras. 

Eis que ele chega hoje à porta lateral. 
Ela está fechada. Depois que foi condenada, uma vegetação selvagem começou a cobri-la. 
A fechadura ficou toda enferrujada. 
Mas ele pára diante da sua porta e olha para ela. Será que vai tocar, mostrando que deseja refazer as relações íntimas de outrora? Ele toca. Será que abro? 

Nada está pronto para recebê-lo. 
Tudo se encontra em completa desordem. 
E onde está a chave dessa porta? 
Ele bate de novo. Eu observo de longe, ele toca suavemente, lentamente. 
Noto que seu olhar se dirige diretamente em frente, para a porta. 

Sua expressão é grave, atenta, mas não impaciente. Parece concentrar-se, não sobre a porta e a resposta que lhe darei, mas sobre a graça que o Pai pode inspirar-me. 

Ele continua tocando. "Estou à porta e bato". 
Que fazer? Não posso viver sem sua presença, e não posso suportar sua presença. Se abro, será que ele vai me fazer questionamentos? Tentarei desculpar-me? 
Só posso abrir, se me decido a entregar-me a ele, sem condições... 

Então não haverá problemas... dirijo-me à porta. Abro-a com dificuldades, por causa das plantas parasitas que aí cresceram. 

"Senhor, entre, tu sabes..." 
Eu ia dizer: "tu sabes, Senhor que, apesar de tudo, eu te amo!" 
Mas não ouso continuar a frase, e um soluço me impede a voz. Ele me olha com um sorriso calmo e diz: "eu sei... vou cear com você, hoje". 
Eu me assusto: "Senhor, eu não preparei a ceia, não tenho nada do necessário". 
Ele responde: "Sou eu que o convido. Eu quero em tua casa celebrar a minha ceia".

Monge orienta